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20 de jun de 2010

A paralisação da moral política


Professores da rede pública são trabalhadores para os quais muitos governantes se acostumaram a olhar e pensar: “ah, estes aí se contentam com qualquer coisa”. A paralisação dos docentes da rede estadual mineira prova que as coisas são mais ou menos assim. A classe é desvalorizada por importantes pilares da sociedade. Já presenciei casos de pais que saem de casa para brigar com profissionais de ensino simplesmente por terem acreditado em versões de filhos descomprometidos com o processo de aprendizagem, que promovem bagunça nas salas de aulas e, em casa, dizem que os culpados pelas notas ruins são os professores.

Entre alunos, são pouquíssimos (pelo menos dentro da educação básica) aqueles que se sentem orgulhosos e felizes por terem alguém tão inteligente à disposição, ensinando o que precisam para evoluir. A partir do momento em que uma pessoa estuda para se formar e passar a vida ensinando em escola pública supõe-se que haja paixão pela prática, vontade de difundir cultura e satisfação pessoal por contribuir para o crescimento das pessoas. Os que ensinam em faculdades são vistos como deuses do conhecimento (e tem alunos que almejam superá-los).

Na recente crise em Minas, professores resolveram suspender a greve (depois de 48 dias) sem que tivessem conseguido alcançar seu objetivo – o reajuste do piso salarial. Teriam eles perdido a esperança ou sentido pena dos alunos, os mais prejudicados nesta história? O governo ameaçou demitir protestantes, mas não fez isso. Ele sabe que de nada adiantaria demitir os que lutavam por reajuste salarial e nomear novos mestres, sedentos para postarem-se diante de uma turma de alunos. Inicialmente, os grevistas encararam a ameaça feita pelo governo como uma forma de opressão. Buscando união entre as classes, o movimento grevista pedia, por meio de textos publicados na internet, que professores recém-formados não se candidatassem para preencher as “vagas”, alegando que passariam a receber o mesmo salário desagradável deles.

Depois de 48 dias com salas de aulas vazias, a ordem foi (pelo menos por enquanto) restabelecida. Os alunos da rede pública estadual estão novamente tocando o calendário. Os professores ainda não alcançaram seu objetivo e o Estado negocia com o Legislativo uma proposta de revisão da carreira que, mesmo que seja aprovada, passará a valer apenas em 2011.

Se existisse uma bola de cristal capaz de mostrar que a situação chegaria a tal ponto, professores não precisariam estagnar tanto o calendário letivo. A liderança da classe não soube conduzir adequadamente seus militantes a tentar uma reivindicação que o governo não iria atender. Resultado: os alunos e suas famílias foram, mais uma vez, os maiores prejudicados. O Estado vai pagar os dias parados, nenhum professor vai perder o cargo, ninguém receberá nenhuma pontuação negativa. O governo se comprometeu também a desistir da ação que puniria o sindicato grevista com uma multa diária.

A conta do tempo perdido será paga pelos alunos. Eles receberão, nas férias, nos fins de semana e fora do horário regulamentar, um substitutivo das aulas perdidas que não repõe as perdas que tiveram, conforme experiências passadas. São eles que vão sentir, no seu futuro, a má qualidade do ensino que estão recebendo. Em toda greve o roteiro é o mesmo. No primeiro terço, força total com apoio do povo. No segundo terço, começam os refluxos e aparece a primeira proposta governista, diminuindo o apoio do povo. Por último, há o corte de ponto. A categoria aceita a proposta temendo demissões.

Mais além, esta paralisação se mostra eleitoreira. Embora a classe diga que o piso incompatível seja praticado há anos, esperou-se a saída de Aécio Neves (do cargo de governador para tentar o cargo de senador) e o início de decisões importantes para delinear as candidaturas. Educadores não precisariam chegar a este extremo se a educação fosse vista como uma prioridade pelos nossos governantes. Espera-se que o acordo a ser trabalhado ponha definitivamente um ponto final num bate-boca sem necessidade de ser.

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