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2 de ago de 2008

Coringa de Ledger arrebenta!

"Batman: o cavaleiro das trevas", sexto filme do herói da DC Comics nos cinemas e segundo a cargo do diretor Christopher Nolan, tem estréia mundial nesta sexta-feira (18). Crítica em uma linha: Heath Ledger arrebenta como o Coringa. Como todos que vêm acessando a internet nas últimas semanas já leram, a performance do ator, morto em janeiro deste ano por overdose de medicamentos, realmente é de arrepiar. Justifica cada elogio recebido da crítica especializada.

Mais do que qualquer outro que já tenha encarnado o arquiinimigo de Batman no passado - de Cesar Romero a Jack Nicholson -, Ledger não só "faz o papel"; ao longo dos 142 minutos do longa, um thriller policial que coloca o vilão no centro de uma batalha entre a máfia e os defensores da lei em Gotham City, Ledger "é" o Coringa. Tentar olhar para além dos cabelos desgrenhados, da maquiagem borrada e dos olhos opacos da presença macabara que vemos na tela é tarefa inútil. Seu Coringa é a materialização do "psicopata, assassino em massa, esquizofrênico, com zero de empatia" que o próprio Ledger descreveu pouco antes de morrer. Não há ali quaisquer resquícios do bad-boy bonitinho de "10 coisas que eu odeio em você" ou do caipira recalcado de "O segredo de Brokeback Mountain", performance pela qual, justiça seja feita, foi indicado ao Oscar de melhor ator em 2006. Ou seja, Ledger era mesmo muito bom, e a campanha que vem sendo feita na rede por uma indicação póstuma está longe de ser "apenas" histeria de fãs e blogueiros desavisados

Mas o trunfo do Coringa não se deve só à força da atuação de Ledger - ainda mais brilhante quando comparada à performance apagada de Christian Bale como o Batman (alguém providencie uma pastilha de garganta pra ele). Ao contrário do que se poderia esperar de uma história de super-heróis tradicional, aqui, é o vilão quem dita o tom do filme, ao apresentar sua carta de intenções: eu represento o caos, a anarquia, o excesso de regras torna o mundo chato, estou aqui para bagunçar o coreto, ou, como diz o mordomo Alfred (Michael Caine), "para ver o mundo pegar fogo". Aos olhos do espectador, a missão do Coringa pode, portanto, soar muito mais fascinante - porque perigosamente tentadora - do que a velha ladainha do vigilante que dedica sua vida a varrer o mundo de criminosos em nome do Bem. Mesmo Harvey Dent (Aaron Eckhart), o promotor público caxias que diz acreditar em um novo amanhecer para Gotham City, tem o seu momento profético de (in)sanidade ao sugerir a Bruce que "você morre como herói, ou então vive o tempo suficiente para se tornar o vilão". E é essa simpatia velada por uma visão de mundo mais anárquica, menos certinha, que não só obriga o próprio Batman a repensar alguns de seus valores mais caros como também é ela que torna o filme tão mais atraente do que as incontáveis histórias de heroísmo e bom-mocismo que encontramos por aí. Da mesma maneira que HQs da década de 80 como "Watchmen", "Sandman" e "O cavaleiro das trevas" (a graphic novel de Frank Miller) foram fundamentais para inaugurar uma nova era de histórias em quadrinhos de temática adulta nas bancas, o filme de Nolan pode desempenhar papel semelhante no cinema e se transformar em um bem-vindo marco da maioridade na seara infanto-juvenil das adaptações de super-heróis para a tela grande.

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